Todo 25 de dezembro, enquanto o mundo celebra o Natal com ceias, trocas de presentes e rituais familiares, algumas províncias próximas a Cusco, no Peru, seguem uma tradição bem diferente: o Takanakuy, uma festa popular que promove pancadaria ao ar livre como forma de restaurar a paz comunitária.
Por mais surpreendente que pareça, o objetivo do ritual é justamente o contrário do que a cena sugere.
Em quíchua, takanakuy significa “troca mútua de golpes”, e a lógica é simples: resolver de uma vez por todas as tensões acumuladas ao longo do ano.
Só depois do confronto físico é que chega a parte considerada mais importante: o abraço final, selando a reconciliação entre os envolvidos.
A tradição acontece principalmente nas províncias de Chumbivilcas e Antabamba, mas já se espalhou para outras regiões do Peru. Em Santo Tomás, palco mais famoso da celebração, a arena recebe centenas de lutadores vindos de cidades vizinhas.
As lutas são acompanhadas pela huaylilla, um gênero musical tradicional cantado por duas mulheres, com harpa e violino marcando o ritmo dos embates. Acordeão, bandolim e violão também costumam compor o cenário.
A festa, contudo, não se resume aos combates. O Takanakuy envolve canto, dança e, como mandam os costumes, muita bebida.
A reunião atrai moradores de diferentes origens e o perfil dos participantes mudou nos últimos anos. Pessoas não indígenas e de classe média já ocupam espaço nas arenas e o ritual também chegou a regiões urbanas, como Lima e Arequipa.
Em 2021, a polícia dispersou mais de 600 participantes em Arequipa por descumprimento das regras sanitárias contra a Covid-19.
Embora celebrado pela comunidade, o Takanakuy enfrenta resistência das forças de segurança, que tentam coibir a prática. Ainda assim, o ritual permanece vivo e profundamente enraizado na cultura local.
Os motivos que levam alguém à arena variam: resolver brigas familiares, provar valentia, acertar dívidas morais, demonstrar talento, reforçar laços de amizade ou simplesmente participar pelo espírito esportivo. Tudo é válido, desde que o confronto termine em reconciliação.
A origem exata da tradição é incerta, mas pesquisadores apontam para o século 19. Nas antigas fazendas escravocratas da região (áreas marcadas pela ausência do Estado) confrontos espontâneos eram comuns.
Com o tempo, essas rinhas informais evoluíram para um ritual organizado, repetido ano após ano, carregando o simbolismo de “entrar limpo” no próximo ciclo.


