Caso Banco Master expõe tensão entre BC, TCU, STF e investigação da PF; entenda

Liquidação extrajudicial, suspeita de fraude bilionária e disputas institucionais colocam o Banco Master no centro de um embate político, jurídico e financeiro

O caso Banco Master se transformou em um dos episódios mais sensíveis do sistema financeiro brasileiro recente, reunindo Banco Central, Tribunal de Contas da União, Supremo Tribunal Federal e investigações criminais da Polícia Federal em um mesmo enredo.

O processo envolve suspeitas de fraude bilionária, decisões regulatórias controversas e questionamentos sobre a atuação de autoridades públicas.

Nesta segunda-feira (12), o Banco Central do Brasil confirmou que aceitou uma inspeção do Tribunal de Contas da União sobre sua atuação na liquidação extrajudicial do Banco Master.

A medida foi anunciada após reunião entre o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o presidente do TCU, Vital do Rêgo.

Segundo o ministro do TCU, o Banco Central buscou o que chamou de “selo de qualidade” da Corte de Contas e maior segurança jurídica para um processo que, segundo ele, extrapola a esfera administrativa.

“Esse processo não é apenas administrativo, é administrativo e criminal”, afirmou Vital do Rêgo.

Origem da crise e bloqueio da venda ao BRB

O caso ganhou força em março de 2025, quando o Banco Regional de Brasília (BRB), ligado ao governo do Distrito Federal, anunciou a compra do Banco Master.

Apesar de a operação ter sido aprovada pelo Cade e pela Câmara Legislativa do DF, o Banco Central barrou a aquisição, alegando risco elevado e ausência de documentos que comprovassem a viabilidade econômica do negócio.

Segundo despachos obtidos pela imprensa, o BC identificou inconsistências nos ativos do Master, consideradas incompatíveis com o perfil financeiro do BRB. A operação criaria um conglomerado estimado em R$ 100 bilhões em ativos.

O Banco Master atuava como instituição financeira e corretora de investimentos. Ele se destacou no mercado ao oferecer rendimentos de até 140% do CDI, bem acima da média praticada por bancos de pequeno porte, que costuma variar entre 110% e 120% do CDI.

O controlador do banco, Daniel Vorcaro, passou a ser investigado por suspeita de emissão de créditos falsos, inclusive no contexto da tentativa de venda ao BRB. A defesa nega irregularidades.

Operação da PF e liquidação extrajudicial do Banco Master

Em 18 de novembro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, apontando um esquema que teria movimentado mais de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito com indícios de fraude.

Segundo a PF, o banco teria:

  • Comercializado títulos de crédito inexistentes

  • Simulado solidez financeira com ativos de fachada

  • Prometido rendimentos elevados sem informar riscos reais

No mesmo dia, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, encerrando suas atividades e determinando a venda de ativos para pagamento de credores. Todas as tentativas de compra da instituição foram automaticamente descartadas.

O BC justificou a decisão citando:

  • Grave crise de liquidez

  • Comprometimento da situação econômico-financeira

  • Violação de normas do Sistema Financeiro Nacional

Caso chega ao STF e gera controvérsias

Em dezembro, o caso avançou para o Supremo Tribunal Federal. O ministro Dias Toffoli acolheu pedido da defesa de Vorcaro, determinou sigilo no processo e assumiu a relatoria.

A decisão gerou repercussão após a revelação de que Toffoli havia viajado em um jatinho com Augusto Arruda Botelho, advogado de um dos diretores do banco. O ministro afirmou que a viagem foi de caráter pessoal.

O ministro Alexandre de Moraes também foi citado após reportagem indicar que o escritório de advocacia de sua esposa firmou contrato milionário com o Banco Master.

Moraes nega qualquer interferência e afirma que tratou com o presidente do BC apenas de temas relacionados à Lei Magnitsky, aplicada contra ele pelos EUA.

A Procuradoria-Geral da República descartou irregularidades, mas a oposição no Congresso pressiona por CPI e até pedido de impeachment.

Inspeção do TCU amplia escrutínio

Em janeiro, o Ministério Público Federal solicitou formalmente que o TCU investigasse se o Banco Central falhou na supervisão do Banco Master antes da liquidação.

Embora relatórios técnicos indiquem que o BC agiu corretamente, a inspeção foi mantida e agora conta com o aval da própria autoridade monetária.

O caso segue em andamento e deve continuar gerando desdobramentos políticos, jurídicos e institucionais nas próximas semanas.

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