A União Europeia (UE) discute a possibilidade de aplicar uma retaliação tarifária de 93 bilhões de euros (cerca de R$ 580,3 bilhões) sobre produtos dos Estados Unidos, segundo informações publicadas pelo Financial Times.
O tema entrou na pauta após declarações do presidente norte-americano, Donald Trump, que anunciou a intenção de impor tarifas a países que se opõem à “compra” da Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca.
A movimentação ocorre em um cenário de negociações diplomáticas e comerciais, com líderes europeus buscando coordenação interna para responder às medidas e evitar um agravamento na relação transatlântica.
Reunião de emergência e estratégia para o Fórum de Davos
De acordo com a reportagem, os países da UE analisam o pacote de tarifas como forma de fortalecer o poder de barganha antes de conversas previstas com Trump durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, que acontece nesta semana.
A discussão também inclui medidas adicionais que podem ser adotadas caso o impasse avance, envolvendo restrições econômicas e comerciais com alcance maior do que apenas tarifas.
Medidas estavam prontas desde o ano passado, mas foram suspensas
As tarifas de retaliação, segundo o Financial Times, teriam sido estruturadas ainda no ano passado, porém ficaram suspensas até fevereiro, como tentativa de evitar uma guerra comercial.
Agora, o assunto voltou à mesa com novas ameaças tarifárias anunciadas por Trump.
Entre os instrumentos avaliados está o ACI (Instrumento Anticoerção), mecanismo europeu adotado em 2023 e que pode permitir ações como limitar o acesso de empresas americanas ao mercado interno, além de impor restrições a investimentos e exportações de serviços.

Trump ameaça tarifa de 10% em fevereiro e elevação para 25% em junho
As declarações atribuídas ao presidente dos EUA indicam que Washington pretende aplicar uma tarifa de 10% sobre países do bloco a partir de 1º de fevereiro, com aumento para 25% em junho, caso a Dinamarca não aceite negociar a compra da Groenlândia.
Em publicação na rede social “Truth Social”, Trump afirmou que os EUA teriam “subsidiado” a Dinamarca e outros países europeus e mencionou o que classificou como uma ameaça crescente ao território.
O presidente norte-americano também escreveu:
“China e Rússia querem a Groenlândia, e não há absolutamente nada que a Dinamarca possa fazer a respeito disso.
Atualmente, eles têm dois trenós puxados por cães como proteção, sendo que um foi adicionado recentemente”.

Reação europeia aponta risco de escalada comercial
Após o anúncio, lideranças europeias se manifestaram contra a aplicação de tarifas.
Em nota conjunta, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmaram que a medida “prejudicaria as relações transatlânticas e acarretaria o risco de uma espiral descendente perigosa”.
O comunicado acrescenta:
“A Europa permanecerá unida, coordenada e comprometida com a defesa da sua soberania”, destaca o comunicado.
Contexto: comércio, OTAN e pressões diplomáticas
Segundo o Financial Times, a UE busca um consenso interno para evitar uma ruptura mais profunda na cooperação com aliados da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), enquanto tenta manter espaço para negociações.
A tensão, que envolve comércio e geopolítica, ocorre em meio a alertas de organismos internacionais sobre os riscos de uma escalada tarifária para a economia global.
Mas, afinal, por que Trump quer a Groenlândia?
Donald Trump voltou a afirmar que os Estados Unidos precisam da Groenlândia por motivos de segurança nacional e nomeou o governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial para Nuuk, o que gerou críticas da Dinamarca e do governo groenlandês.
A Groenlândia é considerada estratégica por ficar na rota mais curta entre Europa e América do Norte, além de ter importância para sistemas de defesa e monitoramento militar. Os EUA já mantêm presença na ilha por meio da base aérea de Pituffik, respaldada por um acordo de 1951 com a Dinamarca.
O território também possui minerais, petróleo e gás, embora o desenvolvimento seja lento. Com ampla autonomia desde 2009, a Groenlândia pode buscar independência via referendo, mas depende economicamente da pesca e de subsídios dinamarqueses.
Dinamarca e Groenlândia reforçaram que a ilha pertence aos groenlandeses e declararam: “Não se pode anexar outro país. Nem mesmo com o argumento da segurança internacional”.


