França recusa convite para integrar “Conselho de Paz” de Trump para Gaza

Governo francês afirma que estatuto do órgão “vai além do mero marco de Gaza” e diz manter foco em cessar-fogo no território palestino

A França informou que “não prevê dar uma resposta favorável”, neste momento, ao convite para aderir ao “Conselho de Paz” proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A posição foi confirmada à AFP por integrantes do entorno do presidente francês Emmanuel Macron.

Segundo a Casa Branca, o conselho vem sendo apresentado a diversos líderes mundiais e teria como objetivo inicial supervisionar tropas em Gaza, região afetada por dois anos de guerra.

No entanto, de acordo com o estatuto consultado pela AFP, o alcance do órgão não parece estar restrito ao território palestino ocupado, o que ampliou as discussões sobre seu formato e competências.

França aponta que estatuto do conselho não se limita a Gaza

Uma fonte próxima ao presidente francês declarou que o texto do Conselho de Paz “vai além do mero marco de Gaza”, diferentemente das expectativas iniciais. Ainda segundo a mesma fonte, a França segue defendendo um cessar-fogo em Gaza.

A iniciativa, de acordo com o governo francês, “levanta questões de grande relevância, em particular no que diz respeito aos princípios e à estrutura das Nações Unidas, que em nenhum caso podem ser colocadas em dúvida”.

Anteriormente, o Ministério das Relações Exteriores da França também ressaltou o “apego” do país, que possui assento permanente no Conselho de Segurança, “à Carta das Nações Unidas”. A chancelaria acrescentou:

“Ela continua sendo a pedra angular de um multilateralismo eficaz, no qual o direito internacional, a igualdade soberana dos Estados e a solução de importação das controvérsias prevalecem sobre a arbitrariedade, as relações de força e a guerra”.

Convites incluem líderes como Putin, Orbán e Mark Carney

A Casa Branca informou que o Conselho de Paz deve ser presidido por Trump e que foram convidados nomes como:

  • Vladimir Putin, presidente da Rússia;

  • Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria;

  • Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá.

O Canadá, segundo o conteúdo divulgado, aceitou integrar o grupo, mas Carney afirmou que não pagará para se tornar membro.

Gaza
Foto: Shutterstock

Por que o Conselho de Paz de Trump é alvo de polêmica?

Segundo informações da BBC Brasil, o “novo órgão internacional de transição” para Gaza, inicialmente associado a um plano de paz envolvendo apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), passou a gerar preocupações à medida que mais detalhes vieram a público, incluindo o modelo de adesão, a composição de seus conselhos executivos e possíveis impactos sobre a atuação da própria ONU.

A seguir, veja os principais pontos que têm sido discutidos sobre o conselho.

Quem foi convidado a integrar o Conselho de Paz de Trump?

De acordo com reportagens, dezenas de líderes receberam cartas-convite. Entre eles:

  • Anthony Albanese, primeiro-ministro da Austrália;

  • Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil;

  • Nikos Christodoulides, presidente do Chipre;

  • Abdel Fattah al-Sisi, presidente do Egito;

  • Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia;

  • Kyriakos Mitsotakis, primeiro-ministro da Grécia;

  • Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia;

  • Jafar Hassan, primeiro-ministro da Jordânia;

  • Asif Ali Zardari, presidente do Paquistão;

  • Karol Nawrocki, presidente da Polônia;

  • Vladimir Putin, presidente da Rússia;

  • Recep Tayyip Erdoğan, presidente da Turquia;

  • Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido;

  • Edi Rama, primeiro-ministro da Albânia;

  • Javier Milei, presidente da Argentina;

  • Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria;

  • Kassym-Jomart Tokayev, presidente do Cazaquistão;

  • Santiago Peña, presidente do Paraguai;

  • Shavkat Mirziyoyev, presidente do Uzbequistão.

O primeiro-ministro da Nova Zelândia, Christopher Luxon, também foi convidado e disse que dará ao convite a “devida consideração”.

Já o Ministério das Relações Exteriores da Tailândia afirmou que está analisando os detalhes da proposta.

Até agora, Lula ainda não se manifestou oficialmente sobre o convite.

Quem já topou participar?

Entre os líderes que aceitaram publicamente o convite estão:

  • Edi Rama, primeiro-ministro da Albânia;

  • Javier Milei, presidente da Argentina;

  • Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria;

  • Kassym-Jomart Tokayev, presidente do Cazaquistão;

  • Santiago Peña, presidente do Paraguai;

  • Shavkat Mirziyoyev, presidente do Uzbequistão.

O secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, Tô Lâm, também teria aceitado.

Já o presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, afirmou estar “pronto para participar”.

O que é exigido para integrar o conselho?

Uma autoridade dos EUA disse à CBS News, parceira da BBC nos Estados Unidos, que não existe exigência para participar do Conselho de Paz de Trump.

No entanto, de acordo com o modelo divulgado, interessados em se tornar membros permanentes, em vez de participar por três anos, teriam de pagar US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,4 bilhões).

Segundo autoridades norte-americanas, os recursos seriam destinados a financiar a reconstrução de Gaza.

Ainda conforme documentos citados, o conselho deve ser ampliado no futuro para tratar de outros conflitos internacionais, e Trump seria presidente vitalício do grupo, mesmo após deixar a Casa Branca.

Donald Trump
Foto: Shutterstock

Conselho pode enfraquecer a ONU?

Na carta enviada aos convidados, Trump afirma que o conselho vai “embarcar em uma nova e ousada abordagem para resolver conflitos globais”.

A proposta foi interpretada como potencialmente capaz de reduzir o protagonismo do Conselho de Segurança da ONU, atualmente responsável por medidas como mediação de paz, operações de manutenção da paz e sanções internacionais.

Enquanto isso, a Casa Branca declarou que a iniciativa “se alinha perfeitamente à Resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas”.

Já a França voltou a mencionar preocupações institucionais. Segundo uma fonte ligada a Macron, o estatuto “vai além do marco exclusivo de Gaza”, acrescentando:

“Ele levanta grandes questões, em particular sobre o respeito aos princípios e à estrutura das Nações Unidas, que em hipótese alguma podem ser colocados em questão”.

Como o Conselho de Paz de Trump deve funcionar?

Além do Conselho de Paz, foram anunciados dois conselhos executivos:

Founding Executive Board

Com foco em investimentos e diplomacia, em nível mais alto.

Gaza Executive Board

Voltado à supervisão do trabalho de campo do Comitê Nacional para a Administração de Gaza, composto por tecnocratas responsáveis pela governança temporária e reconstrução do território.

A Casa Branca afirmou que os integrantes atuarão para garantir “governança eficaz e a prestação de serviços de excelência que promovam a paz, estabilidade e prosperidade para o povo de Gaza”.

No conselho fundador, Trump presidiria um grupo de sete membros, com nomes como:

  • Marco Rubio, secretário de Estado;

  • Steve Witkoff, enviado especial para o Oriente Médio;

  • Jared Kushner, genro de Trump;

  • Tony Blair, ex-primeiro-ministro do Reino Unido.

Palestinos e israelenses terão assento?

Segundo as informações divulgadas, não há palestinos em nenhum dos dois conselhos executivos.

um israelense no Conselho Executivo de Gaza: o empresário do setor imobiliário Yakir Gabay, nascido em Israel e atualmente radicado no Chipre.

O político palestino Mustafa Barghouti disse à BBC:

“Parece que é apenas um conselho norte-americano, com alguns elementos internacionais”.

Do lado israelense, o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que o processo não foi coordenado com Israel e que contraria sua política.

Já o líder da oposição, Yair Lapid, classificou o anúncio como um “fracasso diplomático para Israel”.

O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, escreveu no X:

“A Faixa de Gaza não precisa de nenhum ‘comitê administrativo’ para supervisionar sua ‘reabilitação’, ela precisa ser limpa de terroristas do Hamas.

Situação humanitária e desafios para manter o cessar-fogo

Estimativas da ONU apontam que cerca de 80% dos edifícios em Gaza foram destruídos ou danificados, com 60 milhões de toneladas de escombros.

Além disso, famílias deslocadas enfrentam temperaturas baixas no inverno, abrigo limitado e dificuldades de acesso a alimentos.

Organizações humanitárias afirmam que houve avanços, mas que ainda existem restrições. Israel diz que facilita a ajuda humanitária e que limitações têm o objetivo de impedir que o Hamas explore os esforços de socorro, atribuindo à ONU falhas de distribuição.

No campo político e militar, o cessar-fogo é apontado como um dos principais desafios, diante de exigências conflitantes:

o Hamas condiciona o desarmamento a um acordo mais amplo que envolva a criação de um Estado palestino, enquanto Israel afirma que só deixará Gaza se o grupo entregar suas armas.

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