O aquecimento global deixou de ser um alerta abstrato e passou a interferir diretamente no coração do espetáculo esportivo. Nos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026, que começam na próxima semana, a escassez de neve natural impôs uma mudança estrutural: a competição dependerá majoritariamente de neve artificial.
Um consórcio de pesquisadores europeus analisou dados climáticos dos Alpes italianos ao longo dos últimos 100 anos e chegou a um número contundente: a quantidade média de neve na região caiu 34%.
O impacto é direto nas sedes que receberão as provas, especialmente Bormio, palco do esqui alpino, e Livigno, onde ocorrerão disputas de esqui freestyle e snowboard.
Diante do cenário climático, não é mais viável sediar Jogos de Inverno apenas com neve natural. Para Milão-Cortina 2026, serão produzidos 2,5 milhões de metros cúbicos de neve artificial, o equivalente a cerca de 80% de toda a neve usada nos Jogos.
Essa produção em larga escala exige recursos naturais consideráveis:
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946 milhões de litros de água,
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Volume equivalente a 380 piscinas olímpicas,
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Uso intensivo de canhões de neve em diversas montanhas.
Em Cortina d’Ampezzo, que sediou os Jogos de Inverno de 1956 com 100% de neve natural, o contraste é simbólico.
Setenta anos depois, para garantir pistas seguras, é necessária uma base mínima de 35 centímetros de neve compactada, quase sempre produzida artificialmente.
O problema não se limita à edição italiana. Um estudo liderado por cientistas canadenses aponta que, das 93 montanhas que já receberam provas olímpicas desde 1924, apenas 52 teriam condições climáticas adequadas até 2050.
Segundo o climatologista Carlos Nobre, o aumento da temperatura média afeta diretamente o ciclo da neve:
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Temperaturas mais altas geram chuva, não neve;
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Eventos extremos de seca reduzem ainda mais a capacidade de produção;
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O resultado é uma janela de inverno cada vez mais curta e instável.
O snowboarder Pat Burgener, brasileiro do halfpipe e candidato a medalha, afirma que a mudança é visível desde sua infância. Para ele, a prática segue possível apenas graças à tecnologia.
“Todo ano fica mais quente. Ainda conseguimos competir porque existem máquinas de neve, mas na montanha está cada vez mais difícil”, afirma.
A redução da neve também afeta calendários esportivos. Competições são frequentemente canceladas porque pistas ficam lentas, escorregadias ou inseguras.
A ex-atleta olímpica Jaqueline Mourão, que disputou cinco edições dos Jogos de Inverno, relata que provas de esqui cross-country foram suspensas por falta de neve neste ciclo olímpico.
Mesmo esportes disputados em ambientes controlados sofrem. No bobsled, por exemplo, pistas que antes eram parcialmente abertas hoje precisam ser totalmente cobertas.
Ainda assim, o calor já provocou problemas graves, como no Mundial disputado nos EUA em 2025, quando o gelo derreteu a ponto de expor o concreto.
Segundo Emilio Strapasson, chefe da missão brasileira, o efeito é direto no resultado esportivo: descidas inteiras podem ser anuladas.
O Comitê Olímpico Internacional (COI) afirma estar atento ao avanço da crise climática. A entidade estabeleceu metas de sustentabilidade e redução de emissões, mas especialistas alertam que a questão central já não é apenas ambiental, é existencial para os Jogos de Inverno.
Sem frio suficiente, o espetáculo corre o risco de desaparecer.


