A França vai ampliar seu arsenal nuclear e permitir o envio temporário de aeronaves com capacidade nuclear a países aliados.
O anúncio foi feito nesta segunda-feira (2) pelo presidente Emmanuel Macron, durante discurso na base de submarinos nucleares de Île Longue, na Bretanha.
A medida ocorre em um contexto de instabilidade internacional, marcado pela guerra na Ucrânia, pelo agravamento da crise no Oriente Médio e por discussões sobre o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na segurança europeia.
França vai aumentar número de ogivas nucleares
Durante o pronunciamento, Macron confirmou que determinou o aumento do número de ogivas nucleares francesas, atualmente estimadas em cerca de 290.
“Uma modernização do nosso arsenal é essencial”, disse Macron. “Por isso, ordenei um aumento do número de ogivas nucleares.”
O presidente também declarou: “Decidi aumentar o número de ogivas nucleares em nosso arsenal.”
E acrescentou: “Minha responsabilidade é garantir que nossa dissuasão mantenha, e mantenha no futuro, seu poder destrutivo assegurado.”
Segundo ele, este é o primeiro aumento desse tipo desde pelo menos 1992. O número exato de novas ogivas não foi informado.
Atualmente, a França é a única potência nuclear da União Europeia, após a saída do Reino Unido do bloco.
Nova estratégia de “dissuasão avançada”
Macron apresentou ainda o conceito de “dissuasão avançada”, que prevê a possibilidade de deslocamento temporário de aeronaves francesas equipadas com armas nucleares para países aliados.
O presidente destacou, no entanto, que a decisão sobre o uso de armas nucleares continuará sendo exclusiva da França.
Entre os países citados para cooperação estão Alemanha, Reino Unido, Polônia, Holanda, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca.
“A Alemanha é um parceiro-chave”, afirmou Macron. “Quem quer ser livre deve ser temido. Quem quer ser temido deve ser forte”, declarou.
Além da ampliação do arsenal, a França anunciou a construção de um novo submarino nuclear com capacidade para lançar mísseis balísticos, previsto para entrar em operação a partir de 2036.
Confira a fala de Macron:
Tensão internacional e ataque no Chipre elevam alerta europeu
O anúncio ocorre em meio à escalada de tensões no Oriente Médio. Nesta segunda-feira (2), drones iranianos atingiram uma base britânica localizada no Chipre, ilha estratégica no Mediterrâneo que integra a União Europeia.
Segundo autoridades militares, o ataque causou danos considerados mínimos na pista de pouso. Posteriormente, outros dois drones teriam sido interceptados pelas forças locais.
O episódio levou o governo britânico a retirar familiares que residiam na área da base.
A situação elevou o nível de alerta entre países europeus, que acompanham os desdobramentos do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.

Debate sobre o papel da Otan e dos Estados Unidos
O discurso de Macron também ocorre em meio a questionamentos sobre o compromisso dos Estados Unidos com a defesa europeia no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Líderes europeus vêm debatendo alternativas para fortalecer a autonomia estratégica do continente, especialmente diante das incertezas sobre o chamado “guarda-chuva nuclear” americano.
O presidente francês ressaltou que os interesses vitais da França “não terminam na fronteira” e incluem o território europeu.
“Se tivéssemos que usar nosso arsenal, nenhum Estado, por mais poderoso que fosse, conseguiria se proteger, e nenhum Estado, por mais vasto que fosse, se recuperaria”, disse Macron.
Cooperação com Alemanha e Reino Unido
Além do diálogo com oito países europeus, a França também anunciou a criação de um grupo de coordenação com a Alemanha para discutir a integração de capacidades convencionais, sistemas de defesa antimísseis e elementos nucleares franceses.
O Reino Unido, embora não faça mais parte da União Europeia, segue como aliado estratégico na Otan e mantém capacidade própria de dissuasão nuclear.
Os exercícios conjuntos entre forças francesas e parceiros europeus devem ser ampliados nos próximos anos.
Contexto global
Segundo estimativas internacionais, a França possui o quarto maior arsenal nuclear do mundo, atrás de Rússia, Estados Unidos e China.
O país mantém quatro submarinos com mísseis balísticos e capacidade aérea por meio de caças Rafale equipados para lançamento de mísseis com ogivas nucleares.
A decisão anunciada por Macron insere a França no centro do debate sobre segurança europeia, dissuasão nuclear e estabilidade internacional, em um momento de intensificação de conflitos e rearranjos estratégicos no cenário global.


