Um relatório do Congresso dos Estados Unidos colocou um projeto científico brasileiro no centro de uma disputa geopolítica envolvendo China, América Latina e tecnologia espacial. O documento menciona o radiotelescópio na Paraíba, que será instalado no município de Aguiar, no sertão do estado.
O equipamento integra um projeto internacional de pesquisa chamado BINGO e tem como objetivo estudar a expansão do universo e a energia escura. No entanto, parlamentares norte-americanos afirmam que instalações desse tipo podem ter uso dual, com potencial aplicação em inteligência militar e vigilância espacial.
O documento foi elaborado pela Comissão Seleta da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos sobre Competição Estratégica entre os EUA e o Partido Comunista Chinês.
O grupo, formado por deputados republicanos e democratas, foi criado em 2023 com a missão de analisar estratégias para enfrentar a influência chinesa no cenário global.
No relatório, intitulado “China em nosso quintal dos fundos: volume 2”, os parlamentares afirmam que a China estaria desenvolvendo uma rede de instalações científicas e espaciais na América Latina que poderia ter aplicação militar.
Segundo o texto, 11 locais na América do Sul foram identificados como possíveis pontos de cooperação tecnológica com Pequim.
Entre eles estão instalações no:
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Brasil
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Chile
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Bolívia
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Argentina
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Venezuela
No caso brasileiro, o relatório menciona duas estruturas.
A primeira é a Estação Terrestre de Tucano, localizada na Bahia, que faz parte de um acordo firmado em 2020 entre a empresa brasileira Alya Nanossatélites e a companhia chinesa Beijing Tianlian Space Technology.
Segundo o documento, a estação poderia fornecer comunicação entre satélites e a Terra, incluindo transmissões usadas em voos espaciais tripulados e satélites de reconhecimento.
A comissão afirma que a parceria pode permitir à China coletar dados estratégicos e ampliar suas capacidades de vigilância espacial.
Telescópio no sertão da Paraíba
O relatório também cita o radiotelescópio BINGO, que está sendo construído na Serra do Urubu, no município de Aguiar, no Vale do Piancó.
O equipamento foi idealizado pela Universidade de São Paulo (USP) e conta com participação de várias instituições brasileiras, entre elas:
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Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
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Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
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Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
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Instituto Federal da Paraíba (IFPB)
O projeto também envolve universidades e centros de pesquisa do Reino Unido, França, Países Baixos e China.
O radiotelescópio terá dimensões comparáveis às de um estádio de futebol e será capaz de captar ondas de rádio emitidas pelo hidrogênio neutro no espaço.
Essas medições ajudam cientistas a estudar a formação do universo e a expansão cósmica.
Apesar do caráter científico do projeto, parlamentares americanos afirmam que tecnologias de observação espacial podem ter uso dual.
Segundo o relatório, sensores desse tipo poderiam teoricamente ser utilizados para:
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monitorar satélites
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rastrear objetos espaciais
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identificar sinais emitidos por equipamentos militares
O documento afirma que essas instalações poderiam integrar uma rede global de vigilância espacial da China.
Reações no Brasil
Autoridades brasileiras ainda não apresentaram uma resposta oficial ao relatório.
O secretário de Ciência e Tecnologia da Paraíba, Cláudio Furtado, afirmou que o governo estadual aguardará um posicionamento do Itamaraty antes de comentar o caso.
Enquanto isso, parlamentares brasileiros pediram explicações ao Ministério da Defesa sobre a estação citada na Bahia.
O relatório também revela a visão estratégica de Washington sobre a região.
Segundo o documento, os Estados Unidos consideram a América Latina uma área de influência tradicional, e alertam para a expansão da presença tecnológica chinesa no continente.
A comissão recomenda que o governo norte-americano reforce esforços diplomáticos e de inteligência para monitorar projetos espaciais ligados à China na região.


