O ex-presidente de Cuba Raúl Castro, de 94 anos, foi indiciado pelos Estados Unidos nesta quarta-feira (20), acusado de envolvimento na derrubada de duas aeronaves da organização Irmãos ao Resgate, em 1996.
A decisão ocorre em meio ao aumento da pressão do governo de Donald Trump sobre a ilha, que enfrenta uma crise energética e negociações delicadas com Washington.
O anúncio coincidiu com o envio do porta-aviões USS Nimitz para o Caribe e novas declarações de autoridades norte-americanas sobre Cuba.
Segundo o governo norte-americano, Castro teria planejado e executado a operação militar que derrubou os aviões da organização de exilados cubanos.
À época, ele ocupava o cargo de ministro da Defesa de Cuba. O ex-presidente foi acusado de quatro homicídios, dois crimes de destruição de aeronave e conspiração para matar cidadãos norte-americanos.
O episódio é considerado um dos pontos mais sensíveis da relação entre os dois países. O atual presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, classificou o indiciamento como uma ação política sem base jurídica.
Crise energética e aumento da pressão dos EUA
A pressão sobre Havana se intensificou após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro.
Depois da operação contra a Venezuela, os Estados Unidos ampliaram medidas que afetaram diretamente Cuba, incluindo restrições ao envio de petróleo para a ilha.
Desde fevereiro, o país enfrenta apagões frequentes devido à dependência de usinas termoelétricas abastecidas por combustíveis fósseis.
O governo cubano adotou medidas de racionamento, mas informou que as reservas energéticas se esgotaram neste mês.
Nos últimos meses, Donald Trump também passou a fazer declarações públicas sobre Cuba. Em março, afirmou que seria uma “honra” tomar a ilha.
Já no início de maio, declarou que os EUA poderiam “assumir” Cuba “quase imediatamente” após o encerramento da guerra contra o Irã.
Além das declarações, agências norte-americanas intensificaram voos de vigilância próximos ao território cubano. A movimentação inclui aeronaves tripuladas e drones.
Especialistas apontam que as operações funcionam como estratégia de intimidação e demonstração de força. Medidas semelhantes foram adotadas pelos Estados Unidos antes da ação militar contra a Venezuela.

Porta-aviões e negociações diplomáticas
No mesmo dia em que autoridades norte-americanas formalizaram o indiciamento de Raúl Castro, o Comando Sul dos EUA anunciou a chegada do porta-aviões USS Nimitz ao Caribe.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, divulgou um vídeo direcionado aos cubanos propondo “uma nova Cuba” por meio de uma relação direta entre os EUA e a população da ilha.
Já o procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, afirmou que Castro responderá às acusações “por vontade própria ou de outra forma”.
Dias antes, o presidente Díaz-Canel afirmou que Cuba tinha o direito de se defender de uma ofensiva militar e alertou que uma eventual intervenção provocaria um “banho de sangue”.
Enquanto a tensão cresce, Havana mantém negociações com Washington. Em pronunciamento transmitido pela TV em 13 de março, Díaz-Canel confirmou o início das conversas entre os dois governos.
Segundo o jornal ‘The New York Times’, a Casa Branca pressiona pela saída de Díaz-Canel para avançar nas negociações. A publicação afirma, no entanto, que os EUA não exigiriam mudanças amplas no regime comunista nem ações contra a família Castro.
As negociações estariam sendo coordenadas por Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos e defensor histórico da queda do regime comunista da ilha.
Reportagens da imprensa norte-americana também indicam a participação de Raúl Guillermo Rodríguez Castro, conhecido como “Raulito” ou “El Cangrejo”, nas conversas informais entre representantes cubanos e norte-americanos. Ele é filho de Déborah Castro Espín, a mais velha dos quatro filhos de Raúl Castro.
Neto de Raúl Castro, ele não ocupa cargo oficial no governo, mas seria apontado como interlocutor influente nas tratativas.


