A Meta, empresa responsável pelo WhatsApp, passou a cobrar pelo envio de mensagens de chatbots de inteligência artificial no Brasil, afetando serviços como ChatGPT, Copilot, Zapia e Luzia.
A mudança, implementada nesta semana, surge após decisões regulatórias envolvendo o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e já provoca reação entre empresas que utilizam o aplicativo como canal de distribuição de IA.
Apesar de os valores oficiais não terem sido confirmados pela Meta, tabelas consultadas por fontes do setor indicam que o custo por mensagem pode variar entre R$ 0,02 e R$ 0,33, dependendo da categoria e do volume de interações.
Embora o valor unitário seja baixo, o impacto pode ser significativo em larga escala. Plataformas com alto volume de conversas automatizadas podem enfrentar custos mensais de milhões de reais.
Cobrança surge após decisão do Cade sobre chatbots no WhatsApp
A nova política está relacionada a uma decisão recente do tribunal do Cade, que analisou restrições impostas pela Meta à presença de chatbots de inteligência artificial generativa no WhatsApp.
No início do mês de março, os conselheiros rejeitaram por unanimidade o recurso de Facebook e WhatsApp, ambos controlados pela Meta, que buscava derrubar uma decisão anterior da Superintendência-Geral do órgão.
Em janeiro, a área técnica do Cade havia:
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Suspenso preventivamente o veto da Meta aos chatbots de IA no WhatsApp
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Aberto investigação para avaliar possíveis impactos concorrenciais
A preocupação do órgão é que, sem chatbots externos como ChatGPT ou Copilot, o Meta AI poderia se tornar a única opção de inteligência artificial dentro do aplicativo.
Meta afirma que atualização segue exigências legais
Após a decisão do Cade, a Meta retomou a implementação do modelo de cobrança.
Em nota, um porta-voz do WhatsApp declarou:
“Onde formos legalmente obrigados a disponibilizar chatbots de IA por meio da API do WhatsApp, estamos atualizando nossos termos e nosso modelo de preços para que possamos continuar a oferecer suporte a esses serviços”.
Segundo a empresa, o cálculo da cobrança considera cada mensagem enviada pelo provedor de IA ao usuário.
“Por exemplo, se um usuário na Itália enviar um comando a um Provedor de IA e o Provedor enviar três respostas de mensagens que não são de modelo ao usuário em um período de cinco minutos, isso resultará em três cobranças”.
Como funcionará a cobrança de mensagens de IA
Nos bastidores da plataforma, as mensagens enviadas por chatbots de IA serão classificadas como “general_purpose_ai”, categoria que prevê cobrança.
Já empresas que utilizam inteligência artificial apenas para atendimento ao cliente devem permanecer na categoria “AI_BOT”, que segue isenta de tarifas.
No entanto, ainda existe incerteza sobre a categoria final aplicada aos chatbots de IA generativa, o que gera dúvidas no setor.
Atualmente, o WhatsApp possui quatro categorias principais de mensagens comerciais:
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Autenticação – verificação de identidade
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Marketing – envio de ofertas e promoções
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Utilidade – notificações e acompanhamento de serviços
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Serviço – respostas relacionadas ao atendimento
Provedores de IA acreditam que suas mensagens poderiam ser classificadas como “serviço”, categoria que não gera cobrança no Brasil, mas ainda não há confirmação oficial.
Um executivo do setor afirmou: “É complexo para nós entendermos também“.
Simulação indica custos superiores a R$ 2,9 milhões
Caso as mensagens sejam enquadradas na categoria “utilidade”, o preço varia de acordo com o volume enviado.
Uma simulação para 100 milhões de mensagens enviadas indicaria a seguinte estrutura de custos:
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Até 250 mil mensagens: R$ 8.987,90
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Mais 1,75 milhão: R$ 60.139,62
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Mais 15 milhões: R$ 483.760,50
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Mais 18 milhões: R$ 551.962,80
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Mais 35 milhões: R$ 999.243,00
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Mais 30 milhões: R$ 808.911,00
O total mensal poderia chegar a R$ 2.913.004,82, com valores por mensagem variando entre R$ 0,035 e R$ 0,026.
Empresas de IA reagem à nova política
A decisão provocou reações distintas entre empresas do setor.
A Microsoft, responsável pelo Copilot, informou que não comentaria o assunto.
Já a OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, não respondeu até o fechamento da reportagem.
A startup Zapia afirmou que a cobrança pode contrariar o entendimento do Cade.
“Pelo nosso entendimento da decisão do Cade, esses preços não deveriam ser aplicados no Brasil.
A decisão determina que a Meta retorne às regras que estavam em vigor antes da política anunciada em outubro do ano passado. Ainda assim, é preciso ver como a situação vai evoluir, já que não recebemos até agora um comunicado oficial da Meta”, disse Juan Pablo Pereira, CEO da Zapia, ao UOL.
A empresa espanhola Luzia afirmou que os custos inviabilizam a operação no aplicativo.
“Infelizmente, os preços impostos em 16 de fevereiro, que permanecem inalterados desde então, tornam inviável oferecer um serviço na escala em que a Luzia vinha operando até o momento.
Esta decisão da Meta complicará a expansão de novos serviços e sufoca o desenvolvimento da concorrência entre provedores de serviços de IA”, disse Pablo Delgado, head de comunicação da Luzia.
Com cerca de 80 milhões de usuários, a empresa informou que pretende priorizar outros canais de distribuição.
Debate envolve concorrência no mercado de IA
O caso também envolve discussões sobre concorrência no ecossistema digital da Meta.
Segundo o conselheiro Carlos Jacques, relator do processo no Cade, restringir o acesso de chatbots externos pode impactar a competição dentro do aplicativo. “Aumentar o valor do ecossistema”, disse.
Ele também destacou:
“Como orquestradora de um ecossistema digital, a Meta possui a capacidade de decidir pela entrada ou pela exclusão de complementos oferecidos no seu ecossistema.
E, nesse sentido, poderia identificar ameaças aos seus serviços e adotar estratégias para impedir que complementadores ameaçem seus próprios serviços”, disse Carlos Jacques, relator do caso no CADE.
Impacto pode chegar ao usuário final
Embora a cobrança recaia diretamente sobre as plataformas de inteligência artificial, especialistas do setor apontam que o impacto pode chegar ao usuário final.
Com o aumento de custos para operar dentro do WhatsApp, algumas empresas podem reduzir presença no aplicativo ou migrar para outras plataformas, o que pode alterar a forma como serviços de IA conversacional são distribuídos no Brasil.
A investigação do Cade sobre possível conduta anticompetitiva segue em andamento e pode trazer novos desdobramentos para o mercado de inteligência artificial e plataformas digitais.


