O chef Saulo Jennings, conhecido por valorizar ingredientes da floresta, ganhou os holofotes internacionais após se recusar a preparar um menu totalmente vegano para o jantar do príncipe William, previsto para o dia 5 de novembro, no Rio de Janeiro.
O evento faz parte do Prêmio Earthshot, que reconhece soluções inovadoras para os desafios climáticos globais.
Segundo informações da ‘BBC Brasil’, o pedido teria sido para um menu vegano destinado a 700 convidados. Jennings, porém, propôs uma versão com 80% de pratos sem produtos de origem animal e 20% incluindo peixes amazônicos, mas a sugestão não foi aceita.
“A gente tem que valorizar tudo que a floresta nos dá na sua hora e na sua quantidade”, afirmou o chef.
Organização do evento nega imposição de menu vegano
A equipe do prêmio Earthshot informou que os jantares tradicionalmente oferecem comida vegetariana, sem carne de animais, mas não confirmou a exigência de um cardápio vegano.
Fontes próximas ao príncipe disseram que o cancelamento do contrato teria ocorrido por motivos orçamentários, enquanto Jennings sustenta que houve insistência para retirar o peixe do cardápio.
“A gente trabalha com vegano, mas eu não pensava que era excluindo a nossa matéria-prima, os peixes. A cultura alimentar do meu povo é tudo que vem da floresta e dos rios”, explicou o chef em entrevista.
“Ser sustentável na Amazônia é respeitar o tempo da floresta”
Jennings defende que a sustentabilidade amazônica está ligada ao respeito aos ciclos naturais da floresta, e não necessariamente à exclusão de alimentos de origem animal.
“Não ser vegano não significa que é não ser sustentável ou naturalista na Amazônia. Ser sustentável na Amazônia é respeitar o que a Amazônia nos dá no seu tempo”, destacou.
Ele também lembrou que a culinária local tem identidade própria. “Tem uma frase que digo: salada é do europeu. Não é pejorativo, é porque é característico do europeu. O nosso é farinha, peixe, açaí, tucupi.”

De Santarém para o mundo: o chef que levou o pirarucu à realeza
Natural de Santarém (PA), Saulo Jennings é considerado um dos principais representantes da gastronomia amazônica no país e o primeiro embaixador gastronômico da ONU Turismo.
Seu restaurante Casa do Saulo, com filiais em Belém, São Paulo e no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, tem o pirarucu como prato principal — peixe que já foi ameaçado de extinção, mas hoje é símbolo de manejo sustentável.
“Você tirar o peixe da natureza na sua hora certa, no tamanho certo e com respeito e com essa técnica com certeza é sustentável”, explicou o chef, destacando que mais de mil famílias ribeirinhas vivem da pesca manejada do pirarucu.
Polêmicas e defesa da cultura alimentar amazônica
Além disso, o chef Jennings também enfrentou debate semelhante ao participar da organização dos cardápios da COP30, em Belém.
Um edital inicial excluía ingredientes típicos como açaí, tucupi e maniçoba, considerados de “alto risco de contaminação”. Após repercussão negativa, o governo federal reviu a decisão.
“Tudo na Amazônia é in natura… foi aberto diálogo, todo mundo se juntou e resolveu conversar com o órgão que faz a licitação”, relembrou o chef.
Ele reconhece que o episódio o deixou “sensível” a novos pedidos que pudessem desvalorizar a culinária local.

“A comida é onde tudo começa”
Saulo Jennings, que já representou o Brasil em eventos internacionais, acredita que a gastronomia pode ser ponte entre culturas.
Em 2023, ele preparou um fish and chips (peixe com fritas) de pirarucu na cerimônia em homenagem à coroação do rei Charles 3º, em Brasília.
Agora, o chef espera reencontrar o príncipe William para dialogar sobre sustentabilidade.
“Acho que o diálogo é a melhor forma de a gente ter a paz no mundo. Inclusive, a comida, a boa mesa, eu acho que é onde tudo começa.”


