Uma série de buscas em apartamentos de luxo em Kyiv — incluindo um imóvel com um vaso sanitário dourado, supostamente de ouro — e imagens de sacolas de viagem repletas de dinheiro repercutiram na última semana na Ucrânia.
As descobertas, acompanhadas de gravações de áudio que mostram autoridades discutindo estratégias de lavagem de dinheiro, desencadearam o maior escândalo de corrupção enfrentado pelo presidente Volodymyr Zelensky desde o início de seu mandato, em 2019.
A investigação ocorre em meio à invasão russa, ampliando a atenção sobre o episódio e seus impactos políticos.
A “Operação Midas” e o esquema de desvio
A investigação, batizada “Operação Midas”, foi anunciada pela Agência Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU).
Segundo o órgão, 70 buscas foram realizadas para desmantelar uma rede que teria desviado cerca de US$ 100 milhões (que equivalem aproximadamente a R$ 529 milhões) do setor energético ucraniano.
Cinco pessoas foram detidas, incluindo um ex-assessor do Ministério da Energia e um dirigente da estatal Energoatom.
De acordo com a NABU, empresas subcontratadas eram obrigadas a pagar subornos de 10% a 15% do valor de seus contratos para evitar atrasos ou bloqueios de pagamentos.
As investigações também apontam a existência de uma cadeia de comando paralela, com “gestores nas sombras”, e o uso de empresas estrangeiras para lavagem dos valores desviados.
Nome de aliado de Zelensky surge na investigação
A comoção pública aumentou após a divulgação de que o suposto mentor do esquema seria Timur Mindich, empresário de 46 anos descrito como amigo próximo de Volodymyr Zelensky.
Coproprietário da produtora Kvartal 95 — fundada pelo atual presidente — Mindich teria deixado a Ucrânia pouco antes da revelação do caso, possivelmente rumo a Israel.
Investigadores o acusam de “controlar” a lavagem de dinheiro e sua distribuição, além de influenciar decisões de autoridades de alto escalão, incluindo o ex-ministro da Defesa Rustem Umerov, atual secretário do Conselho de Segurança Nacional.
De acordo com o entorno presidencial, Zelensky foi informado do caso já durante as investigações e apoia “plenamente” o trabalho das autoridades.

Reações do governo e renúncia de ministros
Em resposta às pressões internas e externas, Zelensky solicitou a renúncia do ministro da Justiça, German Galushchenko, e da ministra da Energia, Svitlana Grinchuk.
Galushchenko, que já ocupou o Ministério da Energia, é acusado de ter recebido “benefícios pessoais”. Grinchuk, embora não esteja diretamente implicada, é considerada próxima ao ex-ministro.
Governos aliados também acompanharam o caso. O chanceler alemão Friedrich Merz declarou que Zelensky precisa combater a corrupção “com energia”.
Histórico de escândalos recentes
A Ucrânia enfrenta desafios recorrentes na área de integridade pública. Desde 2022, vários casos vieram à tona:
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2023: o então ministro da Defesa Oleksi Reznikov deixou o cargo após suspeitas envolvendo contratos inflacionados de compra de uniformes e alimentos para o exército.
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Abril de 2024: altos funcionários do setor de defesa foram presos por fornecer ao exército dezenas de milhares de projéteis defeituosos.
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O sistema de recrutamento militar também já foi alvo de denúncias, levando Zelensky a substituir todos os responsáveis regionais em 2023.
A relação entre a presidência e órgãos anticorrupção tem sido marcada por tensões.
Recentemente, o governo tentou reduzir a autonomia da Agência Nacional Anticorrupção da Ucrânia e da Procuradoria Anticorrupção (SAP), mas recuou diante da pressão de organizações civis e parceiros ocidentais.


