Após vencer prêmios em Cannes e ser escolhido para representar o Brasil no Oscar 2026, O Agente Secreto, novo filme de Kleber Mendonça Filho, finalmente chegou aos cinemas brasileiros.
O thriller estrelado por Wagner Moura mergulha no Brasil dos anos 1970, entre conspirações políticas, espionagem e medo, mas uma cena em especial vem intrigando o público.
[CUIDADO: contém spoilers de O Agente Secreto]
Em um dos momentos mais comentados do longa, um tubarão é encontrado com uma perna humana dentro da boca, que mais tarde “ganha vida própria” e passa a atacar pessoas pelas ruas do Recife.
À primeira vista, a sequência parece absurda, mas ela tem uma origem bem real no folclore popular.
A inspiração vem da lenda urbana da “Perna Cabeluda”, surgida em Recife nos anos 1970. Criada pelo escritor e jornalista Raimundo Carrero, então redator do Diário de Pernambuco, a história foi publicada em 1976 e logo ganhou fama nas rádios e nas ruas da cidade.
Segundo o mito, a Perna Cabeluda é um membro inferior que se move sozinho pelas madrugadas, coberto de pelos e com unhas deformadas, atacando transeuntes desavisados com rasteiras e chutes.
Depois de causar pânico em um bairro, desaparece misteriosamente, apenas para reaparecer em outro.
Carrero revelou anos depois que a ideia nasceu como uma crítica disfarçada à violência e à censura durante a ditadura militar.
Sob vigilância do regime, jornalistas eram proibidos de abordar diretamente crimes e abusos de poder. Assim, a perna (sem rosto, corpo ou identidade) tornou-se uma metáfora da violência anônima e impune daquele período.
Em entrevista de 2019, o autor explicou: “Vivíamos sob censura. O editor pediu uma coluna de casos absurdos, e eu criei a Perna Cabeluda. Era humor, mas também resistência”.
Kleber Mendonça Filho, conhecido por transformar elementos urbanos e cotidianos em símbolos políticos, resgata essa lenda como metáfora da brutalidade e do absurdo do Brasil dos anos 1970.
Ao misturar o real e o fantástico, o diretor cria uma ponte entre o folclore pernambucano e a repressão do regime militar.
Além de Moura, o elenco reúne Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Isabél Zuaa, Tânia Maria e Alice Carvalho. A produção é assinada pela CinemaScópio, em parceria com a francesa MK2 Films, a alemã One Two Films e a holandesa Lemming Film.


